ACTOS DE ESCUTA

DEBORAH KAPCHAN*
USA

Estamos sempre a ouvir sons, sejam os martelos pneumáticos ou as sirenes de uma grande cidade sejam as cigarras e os tractores do campo. Escutar activamente, porém, requer um outro tipo de atenção. Podemos fazê-lo inclusiva ou exclusivamente, isto é, podemos prestar atenção a todos os sons que estão presentes no nosso ambiente sem hierarquização (estado de escuta meditativa) ou podemos escutar selectivamente, concentrando-nos no som do clarinete da orquestra, por exemplo, ou dirigindo a nossa atenção para o timbre da voz de uma criança entre outras as que brincam no parque infantil da cidade. Apesar de ser frequentemente considerado um processo passivo, a escuta é, de facto, uma tarefa activa, tão essencial na socialização linguística e cultural quanto na iniciação musical e ritual. Mais ainda, a escuta pode implicar sujeito e objecto num novo contexto cultural: escutar atentamente um ambiente previamente desconhecido possibilita novas formas de nos relacionarmos. Uma nova escuta é um novo mundo.
Se nos voltamos para a escuta agora é porque o pêndulo marcou uma viragem: da crença no moderno sujeito racional para uma esperança numa ética intersubjectiva da atenção. Habitamos um “paradigma sónico-afectivo” que pode ser definido por modos de subjectividade e colectividade, eles próprios transformados por relações mutáveis com a tecnologia, novos media, alterações do aparato sensorial assim como por crescentes tensões nas esferas políticas, económicas e ecológicas. Atentar no som, na ressonância, na vibração e mesmo na energia envolve as dimensões estéticas e afectivas da experiência e requer respostas do corpo (somáticas), ainda que mediadas pelo som, imagem ou palavra. Nesta sessão de trabalho, procuraremos uma consciencialização de géneros de escuta que utilizamos no quotidiano, e outros que praticamente desconhecemos, através de diferentes actos de escuta. Focando-nos na escuta enquanto acto de tradução afectiva, exploraremos igualmente modos de escrever a escuta.
* Associate Professor of Performance Studies at New York University, writes on aesthetics, music, narrative and religion in North Africa and the North African diaspora. She is the author of Gender on the Market: Moroccan Women and the Revoicing of Tradition (1996 University of Pennsylvania), Traveling Spirit Masters: Moroccan Trance and Music in the Global Marketplace (2007 Wesleyan University Press) as well as recent articles including, “Learning to Listen: The Sound of Sufism in France (forthcoming, World of Music) and “The Promise of Sonic Translation: Performing the Festive Sacred in Morocco” (2008 American Anthropologist). She is currently editing the volume Theorizing Sound Writing (in progress).