visão curatorial

Encontro Internacional de Estudos de Performance

InDirecções Generativas é um encontro internacional de artistas e investigadores em Estudos de Performance, apoiado pelo programa de Regional Clusters da Performance Studies international – Psi, que terá lugar de 5 a 8 de Setembro de 2013, em Montemor-o-Novo.

Investigando a relação entre “formas de vida”, arte, sociedade e política, Indirecções Generativas visa explorar as potencialidades que o campo dos Estudos de Performance oferece na abertura de um espaço crítico situado entre as Ciências Sociais, as Humanidades e a Arte, dando voz a epistemologias contra hegemónicas e unindo teoria e prática. Indirecção torna-se, assim, um campo magnético que se move entre a teoria e a prática, desafiando fronteiras disciplinares para questionar formas de receber o campo dos Estudos de Performance em Portugal, no momento actual, problematizando o contexto de onde vimos e as possibilidades produtivas do que poderemos ser. O modus operandi deste evento internacional será o conceito de hospitalidade, entendida como uma prática cultural incorporada de receber e ser recebido que abre espaços de contacto e possibilidades de negociação entre o público e o privado, o convívio e a reflexão. Trata-se, acreditamos, de um fazer performativo, simultaneamente afectivo e político, que potencia a construção de pontes entre modos de saber e modos se ser.

Habitar o baldio

a noção de ‘baldio’ – espaço comum passível de ser partilhado por uma comunidade, mas também zona ao abandono, carente de cuidado – servirá de leit motiv para as apresentações públicas dos oradores convidados, que terão lugar em espaços outrora comuns, agora votados ao abandono (por exemplo, uma escola abandonada, uma estação de caminhos de ferro, uma piscina pública desactivada), sendo transmitidas em streaming na internet em edição cuidada a cargo da dupla de vídeo-artistas Isabel Brison e Nuno Rodrigues de Sousa. Com este gesto eminentemente performativo, pretendemos situar-nos no centro da reflexão sobre o que pode ser comum e o que está a deixar de o ser, o que existe e o que queremos que exista, o que podemos partilhar e as condições dessa partilha.

Estudos de Performance em diálogo com três textos oriundos de três diferentes latitudes

Para evitar o franchising de uma epistemologia anglófona, decidimos receber os Estudos de Performance em diálogo com textos escritos em português – três diferentes tipos de português, vindos de três partes diferentes de um mundo necessariamente pós-colonial – ,  que servirão como pontos de partida neste encontro. Forçosamente contraditórios e idealistas, todos eles nos instigam a questionar, simultaneamente, as formas de produção de conhecimento e os mundos que elas constroem. Eles convidam-nos a pensar as premissas em que a contemporaneidade assenta, em português, e por via de discursos não oriundos do cânone centro-europeu, a saber:

– As “Epistemologias do Sul”, de Boaventura de Sousa Santos (Portugal), onde se critica a forma como nas epistemologias dominantes o conhecimento aparece como trans-histórico e desprovido de contexto, propondo, em alternativa, “Epistemologias do Sul” que estariam implicadas com o local, constituindo autênticas “ecologias de conhecimento”, para usar uma expressão sua.

– O “Manifesto Neo Animista”, de Ruy Duarte de Carvalho (Angola), refere este tipo de ecologias ao questionar a urgência dos paradigmas humanistas ocidentais – racionalistas, positivistas e eurocêntricos.

– O “Manifesto Antropofágico” de Oswaldo de Andrade (Brasil). Convoca-se a antropofagia (pela aproximação ao nosso passado ou a uma outra cultura) enquanto forma de encontrar alimento no outro que contém qualidades, propriedades e virtudes para educar a nossa força e criar algo novo, por oposição ao canibalismo que o neoliberalismo representa e destrói a diferença.

uma tarefa urgente – Indirecções

A polissemia da palavra “sentido” permite referir o que é sentido pelos sentidos do corpo, ou o que faz sentido, mas também indica a direcção de um caminho. A direcção é o propósito de um percurso determinado. A InDirecção será, então, um pólo de atracções e repulsas, como um campo magnético que se move entre diferentes campos, atravessa fronteiras, inspira fricções.

Enquanto conceito-chave, InDirecção reúne questões de contexto, de tempo e, de uma maneira produtiva, possibilidades do que foi e do que poderia ser, do que esperamos ter sido e do que esperamos poder ser. Como uma indicação de mudança que não prescreve um mapa mas permite a emergência de direcções inesperadas, InDirecção proporciona um corpo teórico e prático para o nosso evento. Explorando a ideia de InDirecção, consideramos igualmente a noção popular de ‘desnorte’, compreendida agora enquanto ‘desfazer o norte’ , projectando uma resposta ao referido andar ‘à deriva’.

Interrogar os fundamentos de categorias binárias como sul/norte, corpo/mente, teoria/prática, natureza/cultura, escutando vozes outras, torna-se tarefa urgente. InDirecções porque a linearidade não nos serve, assim como não nos serve um relativismo onde ‘vale tudo’ – isso seria uma nova linearidade. As InDirecções de que falamos são, assim, críticas, situadas num espaço e num tempo, fruto de tomadas de posição específicas, em situações particulares, e, por isso, Generativas.